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BLING III: infusão contínua de betalactâmico muda a mortalidade na sepse?

Foram sete mil pacientes para testar se programar a bomba de outro jeito salva vidas. A mortalidade em 90 dias caiu 1,9 ponto percentual e o P parou em 0,08, mas o intervalo de confiança comporta desde nenhum efeito até um número necessário para tratar de 50.
AG
Dr. André Gobatto
Médico intensivista · CRIT
31 de jul. de 2026
9 min de leitura

A infusão contínua de betalactâmico na sepse reduziu a mortalidade em 90 dias de 26,8% para 24,9%, e esse resultado não alcançou significância estatística na análise primária, com odds ratio de 0,91 (IC95% de 0,81 a 1,01) e P=0,08. Na análise ajustada, que estava prevista no protocolo, o intervalo passou a excluir o 1, com odds ratio de 0,89 (IC95% de 0,79 a 0,99). O BLING III é o maior ensaio clínico randomizado já conduzido sobre modo de administração de antibiótico, com 7.031 pacientes, e ocupa o centro desta trilogia porque responde à segunda pergunta da série: escolhida a droga, a forma de entregá-la importa?

De onde viemos

Uma farmacologia que pedia mais tempo, e não mais dose

O que determina a eficácia de um betalactâmico não é o pico de concentração que ele alcança, e sim a fração do intervalo entre as doses em que a concentração livre se mantém acima da concentração inibitória mínima do patógeno. Se a dose diária é a mesma, espalhá-la ao longo de 24 horas mantém essa fração mais alta do que entregá-la em quatro pulsos de 30 minutos, e é daí que vem toda a discussão.

No paciente crítico o argumento fica ainda mais forte, porque o débito cardíaco elevado aumenta o clearance renal e o extravasamento capilar aumenta o volume de distribuição, de modo que a subdosagem acontece justamente em quem menos pode perder tempo. Estudos de farmacocinética já haviam confirmado que a infusão contínua alcança concentrações acima da concentração inibitória mínima com mais consistência do que a intermitente.

O problema é que essa lógica nunca tinha se convertido em desfecho clínico. O BLING II, publicado em 2015, não encontrou diferença em dias vivo e fora da UTI aos 28 dias. O MERCY, de 2023, comparou as duas estratégias com meropenem em 607 pacientes, usando desenho duplo-dummy, e mostrou diferença de 2,5 pontos percentuais na mortalidade em 28 dias a favor da contínua, sem significância estatística. As metanálises que juntavam esses estudos continuavam empatadas consigo mesmas, porque nenhum deles tinha tamanho suficiente para resolver a questão.

O estudo

Cento e quatro UTIs para testar o modo de infusão

O BLING III foi um ensaio clínico randomizado aberto, de fase 3, conduzido em 104 UTIs de sete países (Austrália, Bélgica, França, Malásia, Nova Zelândia, Suécia e Reino Unido), com recrutamento entre março de 2018 e janeiro de 2023. Entraram adultos internados em UTI que tinham infecção documentada ou fortemente suspeita, pelo menos uma disfunção orgânica nas 24 horas anteriores e piperacilina-tazobactam ou meropenem iniciados havia menos de 24 horas. Ficaram de fora quem já vinha usando a droga por mais tempo do que isso e quem estava em terapia renal substitutiva.

A randomização definia apenas o modo de administração, e nada além disso: de um lado, infusão contínua ao longo de 24 horas, precedida de uma dose de ataque em bolus, e do outro, infusão intermitente em 30 minutos. A dose diária ficou a critério do médico assistente, tendo como referência 14 g de piperacilina-tazobactam e 3 g de meropenem, e o tratamento randomizado seguia até o fim do curso ou até a alta da UTI, o que acontecesse primeiro.

Randomizados
7.202 pacientes
7.031 entraram na análise primária, ou 97,6%
Duração mediana do tratamento randomizado
5,8 contra 5,7 dias
doses diárias equivalentes nos dois braços

O desfecho primário foi mortalidade por qualquer causa em 90 dias, e a amostra de 7.000 pacientes dava 90% de poder para detectar uma diferença absoluta de 3,5 pontos percentuais, partindo de uma mortalidade basal presumida de 27,5%. O foco pulmonar respondeu por 59,5% das infecções e o abdominal por 13,0%, o que dá uma população bastante parecida com a que a gente atende.

O resultado

O veredito
Mortalidade por qualquer causa em 90 dias (desfecho primário)
Infusão contínua
24,9%
morte em 90 dias
Intermitente
26,8%
morte em 90 dias
Diferença de 1,9 pp (IC95% de −4,9 a 1,1) · OR 0,91 (0,81–1,01), P=0,08 · análise ajustada pré-especificada com OR 0,89 (0,79–0,99), P=0,04 · cura clínica no dia 14 de 55,7% contra 50,0%

Morreram em 90 dias 864 dos 3.474 pacientes do grupo de infusão contínua, ou 24,9%, contra 939 dos 3.507 do grupo intermitente, ou 26,8%. A diferença absoluta de 1,9 ponto percentual veio com intervalo de confiança que ia de 4,9 pontos de redução a 1,1 ponto de aumento, e o odds ratio de 0,91 (IC95% de 0,81 a 1,01) ficou com P=0,08. Já a análise ajustada para sexo, escore APACHE II, origem da admissão e betalactâmico usado antes da randomização, que também estava pré-especificada no protocolo, devolveu diferença de 2,2 pontos e odds ratio de 0,89 (IC95% de 0,79 a 0,99), com P=0,04.

DesfechoContínuaIntermitenteEfeito
Morte em 90 dias (primário)24,9%26,8%OR 0,91 (0,81–1,01), P=0,08
Morte em 90 dias (análise ajustada)··OR 0,89 (0,79–0,99), P=0,04
Cura clínica no dia 1455,7%50,0%+5,7 pp (IC95% de 2,4 a 9,1), P<0,001
Morte na UTI17,1%18,4%−1,3 pp (IC95% de −4,0 a 1,4)
Morte hospitalar23,3%25,0%−1,8 pp (IC95% de −4,8 a 1,2)
Novo germe multirresistente ou C. difficile7,2%7,5%−0,3 pp (IC95% de −1,9 a 1,4)

A cura clínica em 14 dias foi maior com a infusão contínua, com odds ratio de 1,26 (IC95% de 1,15 a 1,38), e esse é o único desfecho secundário que atingiu significância. Todos os cinco subgrupos pré-especificados, que olhavam foco pulmonar, tipo de betalactâmico, idade, sexo e gravidade, tiveram estimativa pontual favorável à contínua, nenhum deles com significância isolada e nenhum teste de interação positivo. Eventos adversos foram raros nos dois braços, com 0,3% contra 0,2%, e os desfechos terciários de dias vivo e livre de UTI, hospital, ventilação mecânica e terapia renal substitutiva não diferiram.

O que isto agrega

Um P de 0,08 que diz mais do que parece

O intervalo de confiança do desfecho primário vai de 4,9 pontos percentuais de redução até 1,1 ponto de aumento, o que significa que ele acomoda tanto a ausência de efeito quanto um benefício clinicamente relevante. Os próprios autores fazem a tradução: uma redução de cerca de 2 pontos percentuais na mortalidade corresponde a um número necessário para tratar de 50. Vale medir o que isso significa. Tratar 50 pacientes para evitar uma morte já seria um retorno respeitável em qualquer droga nova, e aqui a intervenção se resume a programar a bomba de outro jeito, entregando a mesma dose diária pelo mesmo preço.

Três elementos empurram a leitura na mesma direção. A análise ajustada cruza o limiar convencional de significância, a cura clínica em 14 dias é maior de forma consistente e todos os desfechos secundários e terciários apontam para o mesmo lado, ainda que sem significância isolada. Nenhum deles prova causalidade sozinho, e a análise ajustada não é o desfecho primário, mas também nenhum deles aponta para o lado contrário, o que é diferente de um resultado genuinamente neutro.

As fragilidades que importam

O estudo é aberto, o que era inevitável, já que a intervenção é a bomba à beira do leito e ninguém consegue esconder isso da equipe. Esse problema fica bastante atenuado pelo desfecho primário ser mortalidade, pouco sujeito a viés de aferição, e pela cura clínica ter sido definida de forma objetiva, como término do betalactâmico até o dia 14 sem reintrodução nas 48 horas seguintes para o mesmo episódio, embora 48 horas seja uma janela curta para chamar aquilo de cura.

Duas outras características diluem o efeito da intervenção, e vale entender por que elas puxam o resultado para o nulo. A dose voltava a ser intermitente antes da randomização e depois da alta da UTI, o que reduz o tempo real de exposição à estratégia testada. Além disso, cerca de um terço dos pacientes teve desvio de protocolo, em boa parte pausas ou atrasos maiores que uma hora na infusão, que foram mais frequentes no braço intermitente, com 22,6% contra 15,3%. Os dois fatores aproximam os grupos em vez de afastá-los, ou seja, se houve distorção, ela trabalhou contra a contínua.

Fora do alcance do estudo ficaram os pacientes em terapia renal substitutiva, que foram excluídos, e as regiões com alta prevalência de resistência, onde a extrapolação exige cautela porque a concentração inibitória mínima dos patógenos locais muda a conta farmacodinâmica inteira.

O que muda na prática

À beira do leito, amanhã

  1. Havendo acesso venoso disponível, a infusão contínua é a escolha razoável
    Existe potencial de benefício, não há sinal de dano e o custo da droga é exatamente o mesmo.
  2. A dose diária não muda
    A infusão contínua entrega a mesma quantidade ao longo de 24 horas, precedida de uma dose de ataque, e reduzir a dose por achar que a infusão "rende mais" desmonta o racional que sustenta a estratégia.
  3. Vale reservar uma via só para isso
    O motivo mais comum de desvio no BLING III foi pausa ou atraso na infusão, e uma contínua interrompida a cada droga incompatível vira, na prática, uma intermitente disfarçada.
  4. Com carbapenêmico, a estabilidade obriga a fracionar o preparo
    O meropenem não se mantém estável por 24 horas numa bolsa única, o que significa trocas ao longo do dia e mais trabalho para a enfermagem.
Para onde vamos

A cultura voltou, e agora?

O MERINO ajudou a definir qual betalactâmico usar quando a cepa resiste à ceftriaxona, e o BLING III mostrou como infundi-lo. Resta a decisão que aparece no terceiro ou quarto dia, quando o antibiograma chega e o paciente já está melhor, que é trocar o esquema de amplo espectro por um mais estreito. O descalonamento é recomendação de diretriz há mais de uma década, sustentado por uma pilha de estudos observacionais, e o terceiro artigo desta trilogia, o ensaio de Leone, foi o primeiro a randomizar essa conduta. O que ele encontrou não é bem o que a recomendação faz esperar. Se você chegou aqui pelo meio da série, o primeiro artigo é o MERINO.

Referência
Dulhunty JM, Brett SJ, De Waele JJ, et al. Continuous vs Intermittent β-Lactam Antibiotic Infusions in Critically Ill Patients With Sepsis: The BLING III Randomized Clinical Trial. JAMA. 2024;332(8):629-637. doi.org/10.1001/jama.2024.9779
AG
Dr. André Gobatto
Médico intensivista · Doutor (USP) · Coord. Pós MI
Coordena o Fellowship de Medicina Intensiva da Cetrus e a preparação CRIT para a prova de título. Escreve toda terça (originais) e sexta (clássicos).
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