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Clássicos · SextaSepse e Choque Séptico

APROCCHSS: hidrocortisona com fludrocortisona no choque séptico grave

No mesmo ano em que o ADRENAL deu resultado neutro, 1.241 pacientes franceses em choque séptico grave receberam hidrocortisona associada a fludrocortisona por sete dias. A mortalidade em 90 dias caiu de 49,1% para 43,0%, com 6 pontos percentuais de redução absoluta.
AG
Dr. André Gobatto
Médico intensivista · CRIT
21 de ago. de 2026
10 min de leitura

Poucas semanas depois de o ADRENAL mostrar resultado neutro em 3.800 pacientes, o APROCCHSS mostrou 6 pontos percentuais de redução absoluta de mortalidade em 90 dias com hidrocortisona associada a fludrocortisona. Foram 1.241 pacientes em 34 centros franceses, todos em choque séptico grave: noradrenalina em dose alta por pelo menos 6 horas, duas ou mais disfunções orgânicas e mortalidade de 49,1% no braço placebo. A leitura conjunta dos dois ensaios é o que define quem recebe corticoide hoje.

De onde viemos

Uma hipótese que sobreviveu ao CORTICUS

O ensaio de Annane de 2002, conhecido como Ger-Inf-05, foi o único a mostrar ganho de sobrevida com corticoide na sepse, e usava hidrocortisona associada a fludrocortisona por 7 dias em pacientes que seguiam hipotensos após ressuscitação inicial. O CORTICUS usou hidrocortisona isolada por 11 dias em uma população mais ampla e não encontrou diferença.

A revisão Cochrane que precedeu 2018 tinha 33 ensaios, e apenas dois com poder para avaliar mortalidade em curso longo de corticoide em dose baixa: exatamente o Ger-Inf-05 e o CORTICUS. Um positivo, um neutro, com duas diferenças de desenho que se sobrepunham: a fludrocortisona e a gravidade da população.

O mesmo grupo francês desenhou então um ensaio para repetir o Ger-Inf-05 em escala maior, mantendo as duas escolhas. A justificativa para a fludrocortisona vem de um dado experimental: na sepse, os receptores mineralocorticoides vasculares sofrem regulação negativa mediada por NF-κB, e a reposição de agonista mineralocorticoide restaura a expressão de receptores α1-adrenérgicos e a resposta contrátil em modelo animal. Em estudo farmacocinético no choque séptico, 50 µg de fludrocortisona por via enteral alcançam concentração plasmática com efeito mineralocorticoide significativo.

O estudo

Sete dias, hidrocortisona e fludrocortisona, no choque que não estabiliza

Annane e colegas conduziram um ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo em 34 centros franceses, com pacientes recrutados entre setembro de 2008 e junho de 2015. O desenho original era fatorial 2×2, avaliando corticoide e drotrecogina alfa ativada, isolados ou combinados. Depois da retirada do Xigris do mercado, em outubro de 2011, o ensaio prosseguiu com dois grupos paralelos, e o artigo de 2018 relata a comparação entre quem recebeu hidrocortisona com fludrocortisona e quem recebeu placebo.

Os critérios de inclusão são o ponto central deste texto. Entraram pacientes com choque séptico indiscutível ou provável instalado havia menos de 24 horas, definido por infecção documentada clínica ou microbiologicamente, escore SOFA de 3 ou 4 em pelo menos dois órgãos por no mínimo 6 horas, e uso de vasopressor por pelo menos 6 horas em dose de 0,25 µg/kg/min ou mais de noradrenalina ou epinefrina, ou 1 mg/h ou mais de outro vasopressor, para manter pressão sistólica de 90 mmHg ou média de 65 mmHg.

O esquema foi hidrocortisona 50 mg intravenosa a cada 6 horas e fludrocortisona 50 µg por sonda nasogástrica uma vez ao dia pela manhã, por 7 dias, sem desmame. Os cuidados não experimentais foram harmonizados pelas diretrizes da Surviving Sepsis Campaign de 2008, com verificação de aderência nas reuniões de investigadores.

Incluídos na análise
1.241 pacientes
614 com hidrocortisona e fludrocortisona, 627 com placebo, em 34 centros
Gravidade na inclusão
1 µg/kg/min
dose média de noradrenalina, com SAPS II de 56 e SOFA de 12

O desfecho primário era a mortalidade por qualquer causa em 90 dias. O cálculo amostral previa 320 pacientes por grupo do desenho fatorial para detectar 10 pontos percentuais de diferença absoluta, com poder de 95%.

O resultado

O veredito
Mortalidade por qualquer causa em 90 dias (desfecho primário)
Hidrocortisona e fludrocortisona
43,0%
264 de 614
Placebo
49,1%
308 de 627
Risco relativo de 0,88 (IC95% de 0,78 a 0,99; P=0,03) · 6,1 pontos percentuais de redução absoluta, NNT de 16 · direção mantida na alta da UTI, na alta hospitalar e em 180 dias · hiperglicemia em 89,1% contra 83,1% (P=0,002) · 1.241 pacientes em 34 centros franceses

Em 90 dias, morreram 264 de 614 pacientes no braço da hidrocortisona com fludrocortisona (43,0%) e 308 de 627 no placebo (49,1%), com P=0,03. O risco relativo de morte foi de 0,88 (IC95% de 0,78 a 0,99), o que corresponde a 6,1 pontos percentuais de redução absoluta e a um número necessário para tratar de 16.

DesfechoHidrocortisona e fludrocortisonaPlaceboRisco relativo (IC95%)P
Morte em 90 dias43,0%49,1%0,88 (0,78 a 0,99)0,03
Morte em 28 dias33,7%38,9%0,87 (0,75 a 1,01)0,06
Morte na alta da UTI35,4%41,0%0,86 (0,75 a 0,99)0,04
Morte na alta hospitalar39,0%45,3%0,86 (0,76 a 0,98)0,02
Morte em 180 dias46,6%52,5%0,89 (0,79 a 0,99)0,04
Dias livres de vasopressor até o 28º dia, média1715não se aplica<0,001
Dias livres de falência orgânica até o 28º dia, média1412não se aplica0,003
Dias livres de ventilação até o 28º dia, média1110não se aplica0,07

A direção do efeito se repetiu em todos os momentos de aferição, com a exceção do 28º dia, que ficou em P=0,06. O tempo até o desmame do vasopressor, até o desmame da ventilação e até alcançar SOFA abaixo de 6 foi menor no braço ativo, e os dias livres de vasopressor e de falência orgânica em 28 dias foram maiores.

A segurança foi favorável. Eventos adversos graves ocorreram em 53,1% contra 58,0% (P=0,08). Sangramento gastroduodenal ficou em 6,4% contra 7,2%, e superinfecção em 31,1% contra 28,4%, ambos sem diferença significativa. O único achado consistente de dano foi a hiperglicemia: 89,1% contra 83,1% tiveram pelo menos um episódio de glicemia igual ou maior que 150 mg/dL na primeira semana (risco relativo 1,07; IC95% de 1,03 a 1,12; P=0,002), com mediana de 5 dias contra 3 de glicemia elevada. Sequelas neurológicas em 28 dias, medidas pela escala de incapacidade muscular, foram numericamente mais frequentes no braço ativo, sem significância.

O que isto agrega

A gravidade é a diferença mais mensurável

Comparar os dois ensaios de 2018 por escores de gravidade não funciona, porque o ADRENAL usou APACHE II e o APROCCHSS usou SAPS II. A medida comum é a mortalidade do braço placebo: 28,8% em 90 dias no ADRENAL, 49,1% no APROCCHSS.

Essa distância vem direto dos critérios de entrada. O ADRENAL exigia ventilação mecânica e 4 horas de vasopressor, sem dose mínima e sem número mínimo de órgãos em falência. O APROCCHSS exigia 6 horas de vasopressor em dose de pelo menos 0,25 µg/kg/min, duas disfunções orgânicas graves e choque instalado havia menos de 24 horas, e recebeu pacientes com dose média de noradrenalina de 1 µg/kg/min. São dois pontos distintos do espectro do choque séptico.

Uma terapia adjuvante com efeito absoluto modesto rende benefício mensurável onde o risco basal é alto e desaparece onde ele é baixo. Os dois ensaios são compatíveis com essa leitura, sem que nenhum precise estar errado.

A fludrocortisona como segunda explicação

A outra diferença é de intervenção. Os dois únicos ensaios que mostraram ganho de sobrevida, Ger-Inf-05 e APROCCHSS, usaram fludrocortisona; os dois neutros, CORTICUS e ADRENAL, não usaram. A hipótese mineralocorticoide tem plausibilidade experimental e é coerente com a redução de necessidade de vasopressor observada aqui.

O que falta é um ensaio que compare hidrocortisona isolada com hidrocortisona associada a fludrocortisona na mesma população. Sem essa comparação direta, gravidade e fludrocortisona seguem confundidas, porque variam juntas entre os quatro ensaios.

As ressalvas do próprio APROCCHSS

O ensaio tem limitações que precisam constar. O P do desfecho primário foi 0,03, e não houve ajuste para testes múltiplos em nenhum dos desfechos secundários. O recrutamento levou quase sete anos e foi interrompido duas vezes, primeiro pela retirada do Xigris e depois a pedido do comitê independente, para verificar a qualidade dos agentes do estudo e a distribuição de eventos adversos graves. O desenho mudou no meio do percurso, de fatorial 2×2 para dois grupos paralelos. E houve desequilíbrio na distribuição de patógenos, com mais infecções virais no braço ativo.

Nenhuma dessas ressalvas invalida o resultado, e todas recomendam lê-lo como um efeito de magnitude moderada, num contexto de alta gravidade, em vez de um resultado definitivo.

O que muda na prática

À beira do leito, amanhã

  1. O corticoide entra no choque séptico que não estabiliza
    O perfil que se beneficiou tinha noradrenalina em dose alta por horas e duas disfunções orgânicas. O choque que estabiliza com a ressuscitação inicial ficou fora do ensaio.
  2. O esquema testado é hidrocortisona 50 mg a cada 6 horas com fludrocortisona 50 µg ao dia, por 7 dias, sem desmame
    Foi assim nos dois ensaios que mostraram ganho de sobrevida.
  3. O ganho aparece cedo e se mantém até 180 dias
    A redução foi de 6 pontos percentuais em 90 dias e de 5,9 pontos em 180.
  4. Controle glicêmico é o cuidado obrigatório
    A hiperglicemia foi o único dano consistente, com dois dias a mais de glicemia elevada na primeira semana.
  5. Em choque menos grave, espere só o efeito hemodinâmico
    O ADRENAL, com mortalidade de 28,8% no placebo, mostrou saída mais rápida do choque sem ganho de sobrevida.
Para onde vamos

O saldo da trilogia

Três ensaios, dez anos e uma conclusão que depende de quem está no leito. O CORTICUS retirou o teste da corticotropina da decisão. O ADRENAL estabeleceu que, no choque séptico ventilado de gravidade intermediária, a hidrocortisona isolada acelera a saída do choque com mortalidade inalterada. O APROCCHSS mostrou ganho de sobrevida no choque grave e refratário, com fludrocortisona associada.

Duas perguntas seguem sem ensaio dedicado. A primeira: a fludrocortisona acrescenta algo à hidrocortisona, ou é a gravidade da população que explica tudo? A segunda: existe um limiar de dose de vasopressor a partir do qual o benefício aparece, e onde ele fica? Metanálises de dados individuais têm tentado responder, e enquanto isso a decisão à beira do leito se apoia no perfil de quem entrou neste ensaio, distinto do perfil do ADRENAL.

Referência
Annane D, Renault A, Brun-Buisson C, et al. Hydrocortisone plus fludrocortisone for adults with septic shock. N Engl J Med. 2018;378(9):809-818. doi.org/10.1056/NEJMoa1705716
AG
Dr. André Gobatto
Médico intensivista · Doutor (USP) · Coord. Pós MI
Coordena o Fellowship de Medicina Intensiva da Cetrus e a preparação CRIT para a prova de título. Escreve toda terça (originais) e sexta (clássicos).
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