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REDUCE: o haloperidol previne o delirium?

Em 2018, 21 UTIs holandesas randomizaram 1.789 pacientes de alto risco para haloperidol profilático ou placebo. A sobrevida em 28 dias foi de 83,3% contra 82,7% e a incidência de delirium, de 33,3% contra 33,0%. Os quinze desfechos secundários vieram todos sem diferença.
AG
Dr. André Gobatto
Médico intensivista · CRIT
21 de set. de 2026
9 min de leitura

O haloperidol profilático em dose de 2 mg três vezes ao dia não alterou a sobrevida de pacientes críticos com alto risco de delirium: a razão de risco para óbito em 28 dias foi de 1,003 (IC95% de 0,78 a 1,30), com P=0,93. A incidência de delirium também ficou igual, em 33,3% contra 33,0%. O ensaio REDUCE, de van den Boogaard e colaboradores, publicado no JAMA em 2018, reuniu 1.789 pacientes de 21 UTIs holandesas e é o maior estudo já feito sobre profilaxia farmacológica do delirium. Segue o Hope-ICU nesta trilogia.

De onde viemos

A profilaxia que parecia promissora

Com o resultado negativo do haloperidol sobre a duração do delirium, a atenção se deslocou para a prevenção. O racional era o mesmo bloqueio dopaminérgico, aplicado antes da instalação do quadro, e havia dados pequenos a favor. Um ensaio holandês em idosos de cirurgia de quadril não alterou a incidência, de 15,1% contra 16,5%, mas encurtou e atenuou os episódios; um estudo chinês em pós-operatório não cardíaco de idosos chegou a reduzir a incidência. O próprio grupo de Nijmegen publicara um estudo de antes e depois com 177 pacientes de UTI em que a profilaxia se associou a menos delirium e a mortalidade menor em 28 dias.

Esses achados tinham em comum o tamanho modesto, o desenho não randomizado ou a população cirúrgica selecionada. E tinham contra si a farmacologia: o efeito do bloqueio D2 sobre a incidência de uma síndrome de causas múltiplas, que vai da sepse à hipóxia e à privação de sono, é difícil de sustentar do ponto de vista biológico.

O escore que permitiu selecionar o alvo

O mesmo grupo desenvolvera o PRE-DELIRIC, modelo que estima a probabilidade de delirium nas primeiras 24 horas de UTI a partir de dez variáveis de admissão. A existência do escore tornou possível recrutar apenas quem tinha risco alto, que é a população em que qualquer profilaxia teria a melhor chance de mostrar efeito.

O estudo

Três braços, 21 UTIs, sobrevida como desfecho principal

Foram estudados adultos internados em 21 UTIs da Holanda entre julho de 2013 e dezembro de 2016, com previsão de permanência de ao menos dois dias e risco elevado de delirium pelo PRE-DELIRIC ou por critério clínico. Ficaram de fora quem já estava em delirium, quem usava antipsicótico, quem tinha prolongamento do QTc e as gestantes. De 15.882 pacientes triados, 1.796 foram randomizados e 1.789 entraram na análise primária.

A randomização era 1:1:1 para haloperidol 1 mg, haloperidol 2 mg ou placebo, por via intravenosa três vezes ao dia, até a alta da UTI, até 28 dias ou até a ocorrência de delirium. Instalado o quadro, a droga do estudo era suspensa e o paciente passava a receber haloperidol aberto, em mediana de 2 dias e dose mediana de 3,0 mg ao dia (intervalo interquartil de 2,0 a 4,6). As medidas não farmacológicas de prevenção eram rotina nas unidades participantes, com adesão em torno de 90%.

O braço de 1 mg foi interrompido por futilidade na quarta análise interina, depois de mil pacientes incluídos. A comparação formal do ensaio ficou sendo, portanto, haloperidol 2 mg contra placebo, com 732 e 707 pacientes.

Triados para chegar à amostra
15.882 pacientes
1.796 randomizados em 21 UTIs holandesas, ao longo de três anos e meio
Comparação principal
2 mg contra placebo
732 contra 707 pacientes, depois da interrupção do braço de 1 mg por futilidade

O resultado

O veredito
Sobrevida em 28 dias, o desfecho primário
Haloperidol 2 mg 3x/dia
83,3%
610 de 732 pacientes
Placebo
82,7%
585 de 707 pacientes
Diferença de 0,6% (IC95% de -3,4 a 4,6) · razão de risco de 1,003 (IC95% de 0,78 a 1,30), P=0,82 · incidência de delirium de 33,3% contra 33,0% · 1.439 pacientes de alto risco em 21 UTIs holandesas

A sobrevida em 28 dias foi de 82,9% no grupo do haloperidol 2 mg e de 82,7% no placebo, com razão de risco de 1,003 (IC95% de 0,78 a 1,30) e P=0,93. Em 90 dias a razão de risco foi de 1,012 (IC95% de 0,81 a 1,27), com P=0,86. A incidência de delirium ficou em 33,3% contra 33,0%, com diferença média de 1,5% (IC95% de -3,6 a 6,7).

Os quinze desfechos secundários vieram sem diferença. Dias vivos sem delirium e sem coma, duração da ventilação mecânica, permanência na UTI e permanência hospitalar tiveram todos diferença de zero dia, com intervalo de confiança de 95% que vai de zero a zero.

DesfechoHaloperidol 2 mg (n=732)Placebo (n=707)Efeito
Dias vividos em 28 dias, mediana2828diferença de 0 dia (IC95% de 0 a 0), P=0,93
Sobrevida em 28 dias82,9%82,7%HR 1,003 (IC95% de 0,78 a 1,30)
Sobrevida em 90 diasHR 1,012 (IC95% de 0,81 a 1,27), P=0,86
Incidência de delirium33,3%33,0%diferença de 1,5% (IC95% de -3,6 a 6,7)
Dias vivos sem delirium e sem comadiferença de 0 dia (IC95% de 0 a 0)
Duração da ventilação mecânicadiferença de 0 dia (IC95% de 0 a 0)
Permanência na UTI e no hospitaldiferença de 0 dia (IC95% de 0 a 0)
Contenção física27,0%24,8%sem diferença
Evento adverso grave2 (0,3%)1 (0,1%)
O que isto agrega

Um bom ensaio sobre uma hipótese frágil

A execução do REDUCE é sólida. A alocação foi concebida com sigilo adequado, o cegamento se manteve em três braços, a análise seguiu a intenção de tratar com análises de sensibilidade, e o desfecho primário foi avaliado por tempo até o evento. O braço de 1 mg foi interrompido por futilidade na análise interina, o que poupou pacientes de uma exposição sem benefício.

A escolha do desfecho é o ponto discutível. Dias vividos em 28 dias como desfecho primário pressupõe efeito da droga sobre a mortalidade, e o cálculo amostral assumiu redução relativa de 15% no risco de morte. Esperar que 2 mg de haloperidol três vezes ao dia mudem a sobrevida de uma população heterogênea de pacientes críticos é premissa sem sustentação biológica clara. A mediana de dias vividos, aliás, era um número previsível: como mais da metade dos pacientes sobreviveu aos 28 dias, a mediana estava fadada a ser 28 nos dois braços. A informação útil está na razão de risco.

O encerramento precoce do braço de 1 mg deixou a comparação com placebo com poder post hoc de 6,1%, de modo que a dose menor permanece sem teste conclusivo.

Os dados de delirium e coma vieram de 1.506 pacientes, isto é, 84,2% da amostra, porque 7 das 21 unidades não contribuíram com nenhuma avaliação. A perda incide justamente sobre o desfecho mecanicamente mais próximo da droga.

O resultado tem valor prático apesar disso

O ensaio respondeu com clareza a uma pergunta que vinha sendo respondida por estudos pequenos e observacionais. A incidência de delirium, com dados disponíveis em 84% da amostra, ficou idêntica. Como as unidades participantes aplicavam as medidas não farmacológicas em cerca de 90% dos casos, o resultado descreve o que a profilaxia acrescenta sobre um cuidado já bem feito.

O que muda na prática

À beira do leito, amanhã

  1. A profilaxia com haloperidol sai da prescrição
    Nem a sobrevida em 28 dias nem a incidência de delirium se moveram, com intervalo de confiança estreito o bastante para excluir efeito relevante.
  2. O PRE-DELIRIC continua útil para outra finalidade
    Identificar quem tem risco alto orienta a intensidade das medidas não farmacológicas e a frequência do rastreio.
  3. As medidas não farmacológicas seguem sendo o conteúdo da prevenção
    Mobilização precoce, ciclo dia e noite preservado, presença de familiares, reorientação, óculos e aparelho auditivo devolvidos ao paciente, controle da dor e retirada precoce de dispositivos.
  4. Instalado o delirium, a conduta começa pela causa
    Sepse, hipóxia, distúrbio metabólico, abstinência, dor não tratada e droga deliriogênica em curso respondem por boa parte dos casos e são o que se trata primeiro.
  5. A segurança da dose baixa ficou documentada
    Dois eventos adversos graves em 732 pacientes tratados sustentam o uso pontual da droga na agitação, com eletrocardiograma e correção de distúrbio eletrolítico.
Para onde vamos

Se o bloqueio dopaminérgico não previne, o que previne?

Com o Hope-ICU e o REDUCE, o haloperidol ficou sem efeito demonstrado sobre a duração e sobre a incidência do delirium. Em 2018, o ensaio MIND-USA, de Girard e colaboradores, publicado no New England Journal of Medicine, acrescentou o mesmo resultado para o tratamento do delirium já instalado com haloperidol ou ziprasidona, e em 2022 o AID-ICU, de Andersen-Ranberg e colaboradores, encontrou dias vivos e fora do hospital sem diferença significativa com haloperidol em pacientes já delirantes.

Restava testar um alvo farmacológico diferente. No mesmo ano do REDUCE, dois centros da América do Norte deslocaram a pergunta do receptor dopaminérgico para o sono e a sedação noturna, com dexmedetomidina em infusão apenas durante a noite, no ensaio de Skrobik, que fecha esta trilogia.

Referência
van den Boogaard M, Slooter AJC, Brüggemann RJM, et al. Effect of haloperidol on survival among critically ill adults with a high risk of delirium: the REDUCE randomized clinical trial. JAMA. 2018;319(7):680-690. jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2671566
AG
Dr. André Gobatto
Médico intensivista · Doutor (USP) · Coord. Pós MI
Coordena o Fellowship de Medicina Intensiva da Cetrus e a preparação CRIT para a prova de título. Escreve toda terça (originais) e sexta (clássicos).
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