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Journal Club · TerçaChoque e Hemodinâmica

Um alvo de pressão arterial mais alto na cirurgia abdominal de alto risco?

O HISTAP, publicado na Intensive Care Medicine, randomizou hipertensos de alto risco em cirurgia abdominal de grande porte para um alvo intraoperatório de PAM ≥80 mmHg ou o habitual ≥65 mmHg, ambos sob monitorização hemodinâmica contínua e fluidoterapia protocolizada. O alvo mais alto reduziu a disfunção orgânica, à custa de mais vasopressor e transfusão.
AG
Dr. André Gobatto
Médico intensivista · CRIT
07 de jul. de 2026
9 min de leitura

A pressão que perseguimos no intraoperatório costuma ser um número herdado: mantenha a PAM acima de 65 mmHg e siga em frente. É um piso confortável, quase automático, sustentado por anos de observação de que a hipotensão intraoperatória anda junto com lesão renal, injúria miocárdica, delirium e morte no pós-operatório. Mas associação não é causa, e um piso único ignora que nem todo rim tolera a mesma pressão.

O HISTAP nasce dessa desconfiança. Pergunta, de forma direta e pragmática, se empurrar a PAM para ≥80 mmHg no hipertenso de alto risco, aquele cuja autorregulação pode ter se deslocado para cima, protege os órgãos melhor do que o alvo tradicional. A resposta foi sim, mas com uma letra miúda que muda tudo na hora de levar para o centro cirúrgico.

De Onde Viemos

O piso de 65 e suas exceções

A hipotensão intraoperatória é um dos poucos parâmetros modificáveis consistentemente ligados a desfecho ruim: PAM abaixo de 60 a 65 mmHg aparece associada a lesão renal aguda, injúria miocárdica, acidente vascular cerebral e óbito. Daí o consenso de evitar PAM sustentada abaixo de cerca de 60 a 65 mmHg. O que ninguém sabia era o teto: subir o alvo além disso ajuda, ou só dá efeito colateral?

O hipertenso crônico é o candidato natural a precisar de mais. A autorregulação renal, cerebral e coronariana pode estar deslocada para pressões mais altas, e trabalhos observacionais sugerem que esse paciente precisa de menos tempo abaixo de um dado limiar para sofrer o mesmo aumento de risco em 30 dias. A fisiologia aponta para cima; faltava o ensaio.

Os ensaios que vieram antes

A literatura recente, porém, decepcionou quem apostava em alvos mais altos ou individualizados. POISE-3, BP-CARES, IMPROVE-Multi e PRETREAT, com populações e estratégias variadas, não mostraram redução de complicações ao mirar acima de 65 mmHg ou ao individualizar a meta. A exceção foi o INPRESS (2017): pressão sistólica dentro de 10% do basal somada a fluidoterapia guiada por metas, em pacientes de alto risco sob monitorização contínua, reduziu a disfunção orgânica.

A diferença do INPRESS não era só o alvo pressórico, era o pacote: pressão mais monitorização hemodinâmica contínua mais manejo protocolizado de volume. O HISTAP foi desenhado nessa mesma linha, mas testando um alvo fixo e simples, fácil de reproduzir à beira do leito.

O Estudo

Um alvo simples, um pacote sofisticado

O HISTAP é um ensaio italiano, multicêntrico (18 centros), randomizado, estratificado e com avaliadores de desfecho cegos, conduzido pela SIAARTI entre 2023 e 2025. Incluiu adultos com 60 anos ou mais, hipertensos crônicos em tratamento, agendados para cirurgia abdominal de grande porte (laparoscópica, robótica ou aberta) com duração esperada de ao menos 3 horas e pelo menos um critério adicional de alto risco.

PAM ≥80 mmHg
315
alvo alto · PAM alcançada 88 ± 9 mmHg
PAM ≥65 mmHg
315
alvo padrão · PAM alcançada 77 ± 7 mmHg

A intervenção durava da indução ao despertar. Os dois braços recebiam o mesmo cuidado sofisticado: monitorização hemodinâmica contínua por análise de contorno de pulso e fluidoterapia protocolizada, guiada por responsividade a volume. A hipotensão (PAM abaixo do alvo por mais de 1 minuto) era corrigida por algoritmo: bolus de efedrina ou etilefrina, ou infusão de noradrenalina. A única variável deliberadamente diferente entre os grupos era o número perseguido no monitor.

O desfecho primário foi um composto: morte em 30 dias ou ao menos uma disfunção orgânica maior (renal, respiratória, cardiovascular, neurológica ou infecciosa) até o 7º dia. De 1040 rastreados, 630 entraram na análise por intenção de tratar (315 em cada grupo). A separação de pressão foi nítida: 11 mmHg de diferença média sustentada ao longo de toda a cirurgia.

O resultado

O veredito
Disfunção orgânica maior ou morte em 30 dias (desfecho primário composto)
PAM ≥80 mmHg
38,1%
desfecho composto
PAM ≥65 mmHg
48,9%
desfecho composto
Menos eventos com o alvo alto · RR 0,78 (IC95% 0,65–0,93) · redução absoluta 10,8 pontos percentuais · NNT ≈ 9 · P = 0,006

O alvo mais alto venceu no composto. Disfunção orgânica ou morte ocorreu em 38,1% com PAM ≥80 contra 48,9% com PAM ≥65: RR 0,78 (IC95% 0,65–0,93), redução absoluta de 10,8 pontos percentuais, P = 0,006. Em número que cabe no plantão, é um NNT de cerca de 9. A curva de Kaplan-Meier separou cedo e se manteve (HR 0,72; IC95% 0,57–0,92).

Mas o composto engana se lido sem os componentes. Quando se abre a caixa, quase todo o benefício mora em um único órgão.

ComponentePAM ≥80PAM ≥65RR (IC95%)
Lesão renal aguda (AKIN ≥1)23,5%33,7%0,70 (0,54–0,90)
Respiratório7,3%10,8%0,68 (0,41–1,12)
Cardiovascular5,7%5,4%1,06 (0,56–2,02)
Neurológico1,0%3,2%0,30 (0,08–1,08)
Morte em 30 dias2,5%1,9%1,33 (0,47–3,80)

Só a lesão renal aguda atingiu significância. Os demais componentes ou empataram ou apenas tenderam, sem poder para confirmar. Não houve ganho de mortalidade, e ela foi baixíssima (cerca de 2%): o estudo informa sobre disfunção de órgão, não sobre sobreviver.

O Que Isto Agrega

O benefício é renal, e é leve a moderado

O motor do resultado é a lesão renal aguda: caiu de 33,7% para 23,5%. E, ao detalhar por estágio, o ganho se concentra nos graus mais brandos: AKIN 1 (21,3% vs 29,8%; RR 0,71) e AKIN 2 (5,4% vs 11,1%; RR 0,49). A injúria renal grave, a que evolui para diálise ou muda o rumo da internação, não se moveu. É um desfecho real e mensurável (definido por creatinina e débito urinário, difícil de enviesar), mas é lesão renal sobretudo leve a moderada, não vidas salvas.

O preço da pressão

Perseguir 80 mmHg não sai de graça. O grupo do alvo alto precisou de mais noradrenalina (40,3% vs 22,5%), passou mais tempo em infusão, recebeu doses de pico maiores e mais efedrina. E, talvez o dado mais desconfortável, recebeu mais transfusão de hemácias (11,8% vs 6,7%). O balanço hídrico, esse sim, ficou igual (cerca de 1600 mL nos dois braços), o que tranquiliza: a fluidoterapia protocolizada impediu que o alvo alto virasse sobrecarga de volume. A internação foi um dia mais curta (6 vs 7 dias).

Por que não é 'PAM 80 para todos'

Aqui mora a leitura crítica. Primeiro, o resultado é de um pacote, não de um número. O braço intervenção não diferiu apenas na PAM: usou mais vasopressor, mais transfusão, e tudo isso sob monitorização contínua e volume protocolizado. Atribuir o ganho renal exclusivamente à pressão é ir além do que o desenho permite, e o próprio estudo, aberto no intraoperatório, reconhece esse viés de performance.

Segundo, o alvo é fixo, não individualizado. Não considera a pressão basal de cada paciente, a rigidez arterial, o débito cardíaco ou o limiar de autorregulação de cada órgão. Funcionou na média de uma população enriquecida; não é um decreto universal.

Terceiro, o cenário é específico: 18 centros italianos onde a monitorização por contorno de pulso já é rotina recomendada. Sem essa infraestrutura (curva arterial confiável, algoritmo de volume, equipe treinada em pré-carga dinâmica), o resultado não se transfere direto.

O Que Muda na Prática

No centro cirúrgico, amanhã

O HISTAP não manda subir a pressão de todo mundo. Ele identifica um subgrupo, o hipertenso de alto risco em cirurgia abdominal de grande porte, em que evitar PAMs mais baixas parece proteger o rim, desde que dentro de uma estratégia monitorizada.

  1. O alvo mais alto é para o paciente certo
    Hipertenso crônico, 60 anos ou mais, cirurgia abdominal de grande porte e alto risco: foi quem se beneficiou. Fora desse perfil, os ensaios em população ampla seguem neutros.
  2. A pressão vem com pacote, não sozinha
    Monitorização hemodinâmica contínua e fluidoterapia guiada por metas foram parte da intervenção. Sem elas, mirar 80 mmHg vira só mais vasopressor no escuro.
  3. Pese o ganho renal contra o custo hemodinâmico
    O que se ganha é menos AKI leve a moderada; a conta é mais noradrenalina e mais transfusão. Vale quando a proteção renal é prioritária, não é neutro.
  4. Não espere mudar mortalidade
    O benefício é de morbidade renal precoce. Sobrevida, evento cardiovascular e AKI grave não se moveram.
Para Onde Vamos

O HISTAP reabre, com dados, uma pergunta que os ensaios neutros pareciam ter fechado: em quem a autorregulação está deslocada, o piso de 65 pode ser baixo demais. Mas deixa as perguntas mais interessantes para depois. O alvo individualizado, guiado pela pressão basal ou pela autorregulação real e não por um número fixo, venceria o alvo fixo? O ganho renal brando se traduz em função renal a longo prazo, ou é apenas uma oscilação de creatinina? E o que fazer no pós-operatório, onde a hipotensão é frequente, silenciosa e ficou fora do protocolo?

Por ora, o recado é maduro: para o hipertenso de alto risco na sala de cirurgia abdominal, com o arsenal de monitorização à mão, vale proteger o rim mirando um pouco mais alto, sabendo exatamente o que se paga por isso.

Referência
Cecconi M, Cortegiani A, Noto A, et al; SIAARTI Study Group. HIgh versus STAndard blood Pressure target in hypertensive high-risk patients undergoing elective major abdominal surgery: the HISTAP multicenter randomized clinical trial. Intensive Care Med. Published online June 29, 2026. NCT05637606. doi.org/10.1007/s00134-026-08501-7
AG
Dr. André Gobatto
Médico intensivista · Doutor (USP) · Coord. Pós MI
Coordena o Fellowship de Medicina Intensiva da Cetrus e a preparação CRIT para a prova de título. Escreve toda terça (originais) e sexta (clássicos).
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