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Mitos da MedicinaHematologia, Coagulopatias e Transfusão

De onde veio a hemoglobina de 10

A regra de transfundir abaixo de 10 g/dL nasceu de uma frase de 1942, escrita por dois anestesiologistas da Mayo Clinic dentro de um parágrafo sobre anemia em doença respiratória. Não havia randomização, grupo de comparação nem desfecho medido. Levou 57 anos até que alguém testasse o número, e ele não sobreviveu ao teste. Esta é a arqueologia de um dos mitos mais duradouros da medicina.
AG
Dr. André Gobatto
Médico intensivista · CRIT
07 de ago. de 2026
7 min de leitura

Na UTI, o 10 g/dL já morreu. Nenhum intensivista transfunde um paciente estável porque a hemoglobina está em 9,4.

Fora dela, o número segue vivo. Chega pelo consultor: o ortopedista que quer o paciente otimizado antes da artroplastia, o neurocirurgião que não leva para a sala abaixo de 10, o pré-operatório que devolve o paciente com a recomendação de corrigir a anemia primeiro. Ninguém discute, porque o número parece vir de algum lugar. A pergunta que quase nunca é feita é qual: quem decidiu que era 10?

A resposta é desconfortável, e é o motivo pelo qual esta série existe. O 10 g/dL não veio de um ensaio clínico. Veio de uma frase de opinião escrita em 1942, num parágrafo sobre outro assunto, por um médico tão respeitado que ninguém achou necessário conferir. E permaneceu de pé por 57 anos antes que alguém o testasse.

A frase

1942, Mayo Clinic

Robert C. Adams e John S. Lundy publicaram, em Surgery, Gynecology and Obstetrics, um artigo sobre como reduzir o risco do paciente cirúrgico grave. Era um texto de recomendações práticas, do tipo que a literatura médica da época produzia em abundância: a experiência acumulada de um serviço, organizada por sistema orgânico, oferecida como orientação a quem operava.

Lundy não era um autor qualquer. Cunhou o termo anestesia balanceada em 1926, levou o tiopental à prática clínica em 1934 e organizou em 1935 um dos primeiros bancos de sangue hospitalares dos Estados Unidos. Em 1942, era provavelmente a maior autoridade viva ao mesmo tempo em anestesia e em transfusão. Essa combinação importa para o que veio depois: não é que a frase fosse persuasiva, é que a assinatura dispensava a verificação.

O que estava escrito, exatamente

Na página 1015 do artigo, na seção sobre o sistema respiratório, está a sentença que atravessou o século:

Quando a concentração de hemoglobina é menor que 8 a 10 gramas por 100 centímetros cúbicos de sangue total, é prudente fazer uma transfusão antes da cirurgia.

Duas coisas saltam à vista de quem lê o original em vez da citação.

A primeira é o que não existe por trás dela. Não há randomização, grupo de comparação, desfecho medido, nem sequer uma série de casos. É opinião de especialista, escrita numa época em que o ensaio clínico randomizado ainda estava nascendo na medicina. Lundy não errou: ele opinou, e opinar era o método disponível. Errou quem repetiu por décadas sem nunca testar.

A segunda é o contexto. A frase não é uma regra geral. Ela aparece dentro de um parágrafo sobre anemia no paciente com doença respiratória, logo depois da observação de que a anemia compromete o transporte de oxigênio aos tecidos justamente quando o risco da operação e da anestesia já é alto. O que se universalizou como lei para todo paciente internado era, no texto de origem, uma ponderação sobre um cenário clínico específico.

Como a opinião virou lei

O caminho da frase até o livro-texto foi o de sempre: citação, paráfrase, arredondamento. O intervalo de 8 a 10 perdeu o piso e virou apenas o 10. O 10 ganhou um par, o hematócrito de 30, e a dupla virou a regra 10/30, com a sonoridade de um princípio fisiológico. De livro-texto passou a rotina de pré-operatório, e de rotina passou a indicador auditado de qualidade assistencial, o que fecha o ciclo: a essa altura, transfundir abaixo de 10 já não era uma escolha clínica discutível, era uma não conformidade.

A cada repetição o número ficava mais sólido, sem que um único dado novo tivesse sido produzido. Essa é a mecânica central do mito médico. A evidência não cresce, mas a confiança cresce, porque a confiança se alimenta da frequência com que ouvimos a afirmação, não da qualidade do que a sustenta.

Como a regra caiu

1988: o NIH contesta

Quarenta e seis anos depois da frase, uma conferência de consenso do National Institutes of Health concluiu que não existe gatilho único de 10 g/dL válido para todo paciente, e que a decisão de transfundir deveria considerar a condição clínica, e não um valor isolado de laboratório.

O documento foi publicado no JAMA, teve ampla circulação e mudou pouco. A razão é simples e vale para muito além deste caso: contestar não é testar. Um consenso pode retirar a autoridade de um número, mas não coloca outro no lugar, e a prática clínica não abandona uma regra operacional em troca de uma recomendação de julgamento individual. A regra 10/30 seguiu de pé por mais onze anos.

1999: o TRICC testa

Quem derrubou o número foi o ensaio que finalmente o randomizou. O TRICC alocou 838 pacientes de UTI euvolêmicos, com hemoglobina abaixo de 9 g/dL, para uma estratégia restritiva (transfundir abaixo de 7, manter entre 7 e 9) ou liberal (transfundir abaixo de 10, manter entre 10 e 12).

Estratégia restritiva
418
transfundir se Hb <7 · manter 7 a 9 g/dL
Estratégia liberal
420
transfundir se Hb <10 · manter 10 a 12 g/dL
O veredito
Mortalidade em 30 dias no TRICC (1999), 838 pacientes de UTI
Gatilho restritivo (7 g/dL)
18,7%
mortalidade em 30 dias
Gatilho liberal (10 g/dL)
23,3%
mortalidade em 30 dias
P=0,11 · a estratégia restritiva não foi inferior, e foi superior nos pacientes menos graves e mais jovens

A mortalidade em 30 dias foi de 18,7% no braço restritivo contra 23,3% no liberal, com P=0,11. O desenho era de não inferioridade, e a leitura correta é essa: transfundir menos não custou vidas. O ponto estimado, porém, inclina para o lado restritivo, e nos subgrupos de pacientes menos graves (APACHE II ≤20) e mais jovens (menos de 55 anos) a estratégia restritiva foi significativamente melhor.

Depois de 57 anos, o primeiro teste do número o reprovou.

FOCUS, TRISS e o novo piso

A confirmação veio em outros cenários. O FOCUS randomizou 2.016 pacientes com fratura de quadril e doença ou fatores de risco cardiovascular para gatilho de 10 g/dL ou de 8 g/dL, e a estratégia liberal não melhorou mortalidade nem capacidade de deambular. O TRISS testou 7 contra 9 g/dL no choque séptico e encontrou a mesma mortalidade em 90 dias, com metade das bolsas transfundidas.

EnsaioCenárioGatilhos comparadosResultado
TRICC (1999)UTI geral, 838 pacientes7 vs 10 g/dLRestritiva não inferior em 30 dias
FOCUS (2011)Fratura de quadril, 2.016 pacientes8 vs 10 g/dLLiberal não superior
TRISS (2014)Choque séptico, 998 pacientes7 vs 9 g/dLMortalidade igual em 90 dias

O 10 g/dL saiu das diretrizes. O 7 g/dL entrou.

O que isto ensina
  1. Repetição não é evidência
    Um número citado durante 57 anos não fica mais verdadeiro por isso. A confiança que temos numa afirmação e a qualidade do dado que a sustenta são grandezas independentes, e a prática clínica confunde as duas com facilidade.
  2. A autoridade do autor é o principal inibidor da verificação
    A frase de 1942 não sobreviveu apesar de vir de Lundy. Sobreviveu porque vinha de Lundy. Quanto mais respeitada a fonte, menor a probabilidade de alguém ir conferir o que ela de fato escreveu.
  3. Contestar não é testar
    O consenso do NIH desautorizou o número em 1988 e a prática não mudou. Só um ensaio randomizado ofereceu o substituto operacional que permitia abandonar a regra antiga.
  4. Cuidado com a regra que virou indicador de qualidade
    Quando um número entra na auditoria, ele deixa de ser questionável na beira do leito. A institucionalização de um limiar protege o limiar da própria revisão que o corrigiria.
Para onde vamos

O 7 g/dL é hoje o piso reflexo do paciente crítico estável, e é um número muito melhor do que o 10: nasceu de um ensaio randomizado e foi replicado em perfis de paciente bastante diferentes, da hemorragia digestiva alta à cirurgia cardíaca, do choque séptico ao pós-operatório de alto risco cardiovascular. Em praticamente todos, transfundir menos se mostrou seguro.

Restam duas fronteiras, e não é coincidência que sejam justamente aquelas em que o órgão isquêmico não perdoa a queda na oferta de oxigênio: o paciente com síndrome coronariana aguda e o paciente neurocrítico. Nesses dois territórios a discussão sobre onde colocar a linha segue aberta, e cada um deles merece um episódio próprio nesta série.

Fica ainda a pergunta que abre o próximo capítulo: de onde veio o 7? O próprio TRICC precisou escolher um limiar para o braço restritivo antes de ter qualquer dado que o justificasse.

A diferença, agora, é que a linha se discute com dados e não com uma frase. Foi uma diferença que levou 57 anos para ser conquistada, e que se perde rápido quando repetimos um número sem perguntar de onde ele veio.

Referência
Adams RC, Lundy JS. Anesthesia in cases of poor surgical risk: some suggestions for decreasing the risk. Surgery, Gynecology and Obstetrics. 1942;74:1011-1019. history.mayoclinic.org/wp-content/uploads/2024/05/Anesthesia-in-Cases-of-Poor-Surgical-Risk_Adams_Lundy_1942.pdf
AG
Dr. André Gobatto
Médico intensivista · Doutor (USP) · Coord. Pós MI
Coordena o Fellowship de Medicina Intensiva da Cetrus e a preparação CRIT para a prova de título. Escreve toda terça (originais) e sexta (clássicos).
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