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Titulação autônoma de oxigênio no paciente agudamente doente

O SAVE-O2 AI, publicado no JAMA Internal Medicine, randomizou 300 adultos internados recebendo 1 a 10 L/min de oxigênio para titulação por um sistema de alça fechada ou titulação manual pela equipe, durante 72 horas. A máquina aumentou o tempo na faixa de saturação de 90% a 96% em 21 pontos percentuais, quase tudo à custa de cortar hiperóxia. Nenhum desfecho clínico foi medido com poder suficiente, e o tamanho do efeito depende de qual oxímetro julga.
AG
Dr. André Gobatto
Médico intensivista · CRIT
10 de ago. de 2026
9 min de leitura

O oxigênio é a droga mais prescrita do hospital e a menos titulada. A prescrição costuma trazer uma faixa alvo de saturação, e ali ela para. Quem ajusta o fluxo é a enfermagem, entre uma tarefa e outra, a cada uma a duas horas na UTI e a cada quatro a oito horas na enfermaria. No intervalo, quem titula é o paciente: ele tosse, senta, dorme, caminha até o banheiro, e o fluxômetro continua exatamente onde estava.

A oximetria de pulso resolveu metade do problema. Ela nos diz, em tempo real, que o paciente saiu da faixa. Não faz nada a respeito. O SAVE-O2 AI testa a outra metade: entregar o fluxômetro a um sistema de alça fechada que enxerga a saturação e responde sozinho.

De Onde Viemos

O oxigênio como droga, com dose e com dano

A hipoxemia no paciente internado se associa a mortalidade elevada quando a oferta de oxigênio é inadequada, e ninguém discute a necessidade de corrigi-la. O lado menos intuitivo é o excesso. O AVOID, no infarto com supradesnivelamento, sugeriu maior tamanho de infarto com oxigênio liberal em pacientes não hipoxêmicos. A metanálise IOTA, com mais de 16 mil pacientes agudamente doentes, encontrou mortalidade maior com estratégias liberais de oxigênio. O oxigênio deixou de ser um confortável excesso inócuo e passou a ter dose.

Isso transforma a titulação num problema de precisão nas duas direções ao mesmo tempo. Não basta evitar a queda: é preciso evitar também o desperdício que se acumula em silêncio, porque ninguém é chamado à beira do leito por uma saturação de 99%.

A alça fechada não é ideia nova

A titulação automática de oxigênio já tinha evidência consolidada durante a ventilação mecânica, onde é confiável e custo-efetiva. Fora do ventilador, os estudos existiam mas eram estreitos: doença pulmonar obstrutiva crônica exacerbada, pós-operatório de cirurgia abdominal ou torácica de grande porte, COVID-19 aguda. Quase todos fora dos Estados Unidos e em populações majoritariamente de pele clara, o que importa mais do que parece, porque a oximetria de pulso erra mais em pigmentação escura.

Faltava o teste largo: o paciente agudamente doente genérico, em cateter nasal ou máscara, no primeiro dia de internação.

A pergunta do SAVE-O2 AI não é se a máquina consegue segurar a saturação. É se, no paciente comum de enfermaria e de UTI recebendo oxigênio por cânula, ela consegue fazer isso melhor do que a equipe assistencial faz hoje.

O Estudo

Desenho

O SAVE-O2 AI é um ensaio americano, multicêntrico (4 hospitais terciários de regiões geográficas distintas), de grupos paralelos, randomizado em nível de paciente, aberto, conduzido de 6 de maio de 2024 a 17 de novembro de 2025.

Incluiu adultos internados por doença respiratória aguda, trauma, queimadura ou cirurgia de urgência, recebendo 1 a 10 L/min de oxigênio suplementar e randomizáveis em até 36 horas da internação. Ficaram de fora gestantes, pessoas privadas de liberdade, pacientes com alta ou desmame de oxigênio previstos em 24 horas e aqueles com escalonamento iminente para cateter nasal de alto fluxo, ventilação não invasiva ou ventilação invasiva.

Titulação autônoma
152
pacientes · sistema de alça fechada
Cuidado usual
148
pacientes · titulação manual pela equipe

Os dois braços tiveram o mesmo alvo: saturação de 93%, faixa aceitável de 90% a 96%, reforçada regularmente junto à equipe assistencial durante as 72 horas. Todos os pacientes usaram dois oxímetros, tipicamente em mãos opostas: um do aparelho e um do monitor do hospital, este conectado à central e alarmando normalmente. No braço controle o aparelho ficava em modo apenas de coleta, sem interferir na titulação.

O desfecho primário foi a proporção do tempo dentro da faixa de 90% a 96% nas primeiras 72 horas, calculada pela média ponderada dos dois oxímetros contínuos. O desfecho secundário principal foi a proporção do tempo em hipoxemia, abaixo de 88%. A análise usou modelo linear generalizado quase-binomial com ligação identidade, o que devolve diferença de risco ajustada em proporções médias.

De 2.663 triados, 303 foram randomizados e 300 entraram na população do ensaio. A mediana de idade foi 66 anos, 54% eram mulheres, 69% internaram por doença respiratória aguda e 52% recebiam ao menos 3 L/min na randomização. A mediana de tempo em intervenção foi de 42 horas na titulação autônoma e 41 no cuidado usual.

O resultado

O veredito
Proporção do tempo em normoxemia (saturação de 90% a 96%) nas primeiras 72 horas, desfecho primário
Titulação autônoma
85%
do tempo na faixa
Cuidado usual
63%
do tempo na faixa
Diferença ajustada de 21 pontos percentuais (IC 95% 18 a 25) · P<0,001 · ganho concentrado na redução de hiperóxia, de 29,1% para 9,2% do tempo

A separação foi grande e inequívoca. O tempo na faixa alvo passou de 63% no cuidado usual para 85% na titulação autônoma, diferença ajustada de 21 pontos percentuais (IC 95% 18 a 25), com P<0,001. O efeito favoreceu a titulação autônoma em todos os subgrupos pré-especificados.

Desfecho (72 horas)Titulação autônomaCuidado usualDiferença ajustada (IC 95%)
Tempo em normoxemia (90 a 96%)85%63%21 pp a mais (18 a 25)
Tempo em hiperóxia (acima de 96%)9,2%29,1%18 pp a menos (14 a 22)
Tempo em hipoxemia (abaixo de 88%)2,0%3,6%1,3 pp a menos (0,5 a 2,0)
Tempo em hipoxemia limítrofe (88 a 89%)3,4%4,0%0,3 pp a menos (IC cruza o zero)
Tempo em hipoxemia grave (abaixo de 85%, post hoc)1,0%1,9%0,7 pp a menos (0,3 a 1,2)
O Que Isto Agrega

Quase toda a diferença mora na hiperóxia

Dos 21 pontos percentuais ganhos, 18 vieram de cortar oxigênio a mais. O cuidado usual passou 29% do tempo acima de 96% de saturação, quase um terço das primeiras 72 horas. A hipoxemia, do outro lado, andou 1,3 ponto percentual.

Isso reposiciona o que o aparelho faz. Ele não é primariamente uma rede de segurança contra a dessaturação: é uma máquina de desmame automático. Ele desliga o oxigênio que o humano esquece de desligar, porque ninguém é acionado para reduzir fluxo. O volume total administrado por paciente caiu de 2.992 L para 2.310 L, uma redução de 23% cujo intervalo, porém, ainda toca o 1 (IRR 0,83; IC 95% 0,67 a 1,02).

O oxímetro que titula é o oxímetro que julga

Esta é a ressalva mais importante do ensaio, e os próprios autores a colocam na mesa. Cada paciente carregava dois sensores, e o resultado muda de tamanho conforme qual deles conta a história.

Fonte do desfechoDiferença ajustada (IC 95%)
Apenas o oxímetro do aparelho28 pp (25 a 32)
Apenas o oxímetro do monitor do hospital14 pp (9 a 18)

O sistema titula contra o valor que o próprio sensor mede, e não corrige imprecisão de oximetria: ele persegue com fidelidade o número que enxerga. Era esperado, então, que o sensor do aparelho favorecesse a intervenção e o do hospital favorecesse o cuidado usual. As duas análises apontam na mesma direção, o que é tranquilizador, mas o efeito verdadeiro está em algum ponto dessa forquilha, e a metade inferior dela é bem menos espetacular que a manchete.

O controle era bom demais para ser típico

Nos ensaios anteriores, o grupo de titulação manual passava 40% a 50% do tempo na faixa e 4% a 18% em hipoxemia. Aqui, o cuidado usual entregou 63% na faixa e 3,6% em hipoxemia. Os próprios autores reconhecem que o controle representou um cuidado usual melhorado, provavelmente pela ciência da alocação, pelos lembretes e pela educação das equipes ao longo do estudo.

O efeito disso é ambíguo e vale entender bem. Por um lado, viesa o resultado para o nulo: mesmo contra um controle forte, a máquina ganhou 21 pontos percentuais, e em unidades com menos gente por leito ou no plantão noturno a distância tenderia a ser maior. Por outro, ele descreve exatamente o cenário em que o ganho marginal é menor, e é nesse cenário que os hospitais que comprariam o aparelho costumam estar.

A pele, e o que o ensaio não pode dizer sobre ela

78% dos participantes tinham pigmentação média ou escura pela escala de Monk (56% média, 22% escura), o que é uma força real: os ensaios anteriores foram feitos majoritariamente em pele clara, e a oximetria de pulso superestima a saturação em pigmentação escura. O benefício se manteve em todas as faixas de pigmentação.

Aqui é preciso ser preciso sobre o que isso significa. O ensaio mostra que o ganho de processo é consistente entre tons de pele. Ele não mostra que a titulação autônoma seja segura contra hipoxemia oculta na pele escura, porque os dois braços perseguiram o mesmo número enviesado. Se o oxímetro lê 92% num paciente que está de fato em 88%, a máquina fica satisfeita com a mesma serenidade que o humano ficaria. Automatizar a titulação não conserta o sensor. Se alguma coisa, ela remove da equação o clínico que às vezes desconfia do número.

O que não foi medido

Nenhum desfecho clínico se separou, num ensaio que nunca teve poder para isso: 300 pacientes foram dimensionados para detectar diferença de 10% no tempo na faixa, não para medir morte.

Desfecho exploratórioTitulação autônomaCuidado usual
Mortalidade hospitalar até o dia 284 (2,6%)5 (3,4%)
Falência respiratória até o dia 2814 (9%)11 (7%)
Dias livres de hospital até o dia 28 (mediana)2322
Dias livres de oxigênio suplementar (mediana)2524
Tempo até ar ambiente, dias (mediana)1,051,15

Vale registrar sem maquiagem que a falência respiratória foi numericamente mais frequente no braço da máquina, com razão de risco de 1,42 e intervalo de confiança de 0,63 a 3,17. Com 25 eventos no total, esse número não diz nada em nenhuma direção, mas é o tipo de sinal que o próximo ensaio precisa perseguir de propósito, e não descobrir de novo por acaso.

Não houve evento adverso grave. Foram descritas duas epistaxes e dois casos de desconforto com a cânula ou a máscara, todos no braço da titulação autônoma, o que levou a uma emenda de protocolo exigindo umidificação acima de 8 L/min.

O Que Muda na Prática

Amanhã, na sua unidade, nada

O aparelho testado não tem aprovação do FDA e rodou sob isenção para dispositivo experimental. Não está disponível no Brasil. Este é um ensaio para entender, não para comprar.

O que ele ensina, porém, funciona sem aparelho nenhum.

  1. O alvo não é o problema; a frequência do ajuste é.
    As equipes do estudo sabiam a faixa, ela era reforçada regularmente, e ainda assim o paciente passou 29% do tempo acima de 96%. Prescrever a faixa e reforçar a meta não resolve, porque o gargalo não é conhecimento, é presença à beira do leito.
  2. A hiperóxia é o alvo fácil e esquecido.
    Se algum ganho está ao alcance sem tecnologia nova, é este: alguém precisa ser acionado para reduzir fluxo, não só para aumentar. Um gatilho de desmame explícito, por saturação acima de 96% sustentada, é uma intervenção de custo zero.
  3. Tempo na faixa é processo, não desfecho.
    O paralelo com o tempo no alvo glicêmico é útil e desconfortável ao mesmo tempo: é um substituto plausível, muito usado, e ainda não demonstrado como tradutor de benefício clínico neste contexto.
  4. Onde o ganho seria maior é onde a evidência é menor.
    Enfermaria, plantão noturno, unidades com razão enfermeiro por leito desfavorável, cenários de escassez de oxigênio. São exatamente os lugares menos representados por um ensaio feito em 4 hospitais terciários americanos com controle reforçado.
Para Onde Vamos

O SAVE-O2 AI responde bem a pergunta que fez. A máquina segura a saturação na faixa melhor que a equipe, com folga, sem eventos adversos graves, e o faz principalmente cortando oxigênio desnecessário. Isso é um resultado sólido e nada trivial.

A pergunta que fica é outra, e é a mais cara de responder: acertar a faixa com mais frequência muda alguma coisa para o paciente? Responder exige ensaios muito maiores, com desfechos clínicos duros como desfecho primário, e exige também aparelhos que levem em conta o viés do sensor em vez de persegui-lo com fidelidade. O próprio FDA vem pressionando por melhorias na acurácia e na precisão dos oxímetros de pulso, e um sistema de alça fechada só é tão bom quanto o número que ele obedece.

Por ora, a lição prática mais barata do ensaio não depende de nenhuma máquina: a maior parte do tempo fora da faixa é oxigênio a mais, e ele está lá porque ninguém foi chamado para tirá-lo.

Referência
Douin DJ, Rice JD, Xiao M, et al; SAVE-O2 AI Investigators. Autonomous Oxygen Titration for Maintaining Normoxemia in Acutely Ill Adults: The SAVE-O2 AI Randomized Clinical Trial. JAMA Intern Med. Publicado online em 3 de agosto de 2026. doi:10.1001/jamainternmed.2026.4023. NCT06374225. doi.org/10.1001/jamainternmed.2026.4023
AG
Dr. André Gobatto
Médico intensivista · Doutor (USP) · Coord. Pós MI
Coordena o Fellowship de Medicina Intensiva da Cetrus e a preparação CRIT para a prova de título. Escreve toda terça (originais) e sexta (clássicos).
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